domingo, agosto 20, 2006

No bar em guerra e nua sentada a beber um Coktail Asas Brancas


Que o anjo de si é ávido
De transe e rapidez,
E é ele que chora
Nosso chumbo hora a hora
É ele que não entende
A nossa estupidez.


Vitorino Nemésio


Fernando Pessoa já bebe, sentado na fotogénica calçada, admirando a surprise do ovinho kinder e deitando os búzios no “espelho meu” : Quem foi que ganhou a guerra, Israel, Hezbollah, ou Eu ? É por causa destas coisas sérias que não podemos beber um scocth descansados. Apetece-nos ver o Show dos Marretas e pôr o Coelhinho da Páscoa a pulos desenfreados mas tudo já teve o seu século. Para pelejas há sempre tempo, vou ali e já venho, e quando chego ligo para o 112 internacional porque vejo, em estado atmosférico e de imprensa, um chorrilho de seres com asas a chorar. Sim também palreio com os anjos e por isso esta minha afinidade com o celeste e a inauguração do Angel Bar. Ás vezes, cozinho omeletes sem ovos e distraio-me com os anjos que “são rijos como as pedras” já dizia o Nemésio, mas quando chega a hora ai que é vê-los a derramar ... É por isso, ao sentar-me e plagiar em actos o Pessoa, sou mais fina, e peço um coktail de lágrimas de entes puros e espirituais. Mas diet por causa das moscas. Infelizmente nas guerrilhas, à beira bar sentadas, é importante um copo de cerveja rascunhado de terrorismo particular (tem muitas vitaminas), um copo de whiskie letrado de milícias (próprio para o figado), um copo "on the rocks" de ideologias estranhas (as ideias têm que ser frescas tá claro, faz bem ao corpo) um monstrengo de copo de armaduras lanças e espadas (faz bem à coluna) e muitas coisas bem bonitas para fazer inveja ao bélico, dar umas coceguinhas nos bichos carpinteiros e corda aos sapatos que se faz tarde. Até o Fernando Pessoa poema centros de comando, aponta a infra-estrutura militar e fecha a porta do bunker pois “Senhor, falta cumprir-se Portugal !” Mais tarde dá ordens aos “gigantes da terra [que] suspendem de repente o ódio da sua guerra e pasmam.” Pasmou-se um pedaço de Oriente, mas até quando ?
Eu pasmada fico-me pelo cálice em formato de balão que é próprio para licor, porto, xerez e coquetéis variados. Não esquecer: todos os copos com uma pequena base que os torna bem leves como os anjos , “leves como as plumas” (esta é do Nemésio). E dispamo-nos de preconceitos porque os reis vão nus e sem donaire. O Fernando já convidado deixa a calçada e vem. Senta-se no balcão e “não dorme (...) pois não há sono no mundo.” E escrevinha num lance de vodka “mas na Estalagem do Assombro, tiram-te os Anjos a capa: segues sem capa no ombro (...)Tens só teu corpo, que és tu (...)Então Arcanjos da Estrada despem-te e deixam-te nu.” Pois é Fernando as guerras deixam-nos sem ornatos e despidos ansiamos um cessar fogo destemido. Por agora foi-nos concedido o desejo, foi a surpresa do ovinho kinder...


Hoje sirvo Coktail Asas Brancas
2 doses de gim
1 dose de licor de menta
gelo picado

Preparação:
Ponha os ingredientes no shaker, com o gelo picado, agite bem e sirva em seguida.

3 comentários:

Ca100 disse...

Cá fica a passagem prometida. Vou digerir este post e regressarei em breve :)

Saudações
Pedro

RedleyIam disse...

AngelBar in City of Angels by Red Hot
Chili Peppers´.

Paulo Sempre disse...

Enquanto assentavam as poeiras dos dias de incerteza devido aos efeitos políticos nesta "terra de pão", ex-Pax Julia, mantive,o equilíbrio necessário entre o facetado espelho da infância, onde me revia magnificamente favorecido, e a moderação de opostos, entrosando ideias de esquerda com ingénuidades de direita. Nessa abnegada "missão", sublimei conflitos existênciais que me atormentavam.
Hoje, renovado, não fui capaz de passar por este blogue sem, ao menos, deixar de forma expressa,o meu louvor pela "nobreza" dos seus "artigos".
Obrigado.
Espero continuar a ter o "culto prazer" de voltar.

Paulo Sempre