segunda-feira, dezembro 25, 2006

O Cobrador de Natais


A maioria das pessoas acham que fomos expulsos do Jardim do Éden. Eu não tenho tanta certeza. Acho que fomos nós que expulsamos Deus de lá.
Bono Vox


Boa Festas Sr. Administrador, é noite de natal e tocam os sinos da igreja... Este ano, a uma semana da consoada, prometeu um pontapé e outsourcing. Falou-me em know-how de muitos anos, para ficar descansado, e angels songs para doces medidas e contentamento. Também há muito boa gente que põe armas em países onde hoje o jantar se serve a sangue frio e depois vai à televisão cantar o Jingle Bell. Do que é que eu havia de me lembrar! Que comparação! É como lavar os pés no Mar do Norte e de seguida ganhar uma viagem ao Pólo Sul. Cool drink! E a Leopoldina tão bonitinha no Continente tão caridoso, se não fizermos lá as nossas comprinhas e pagarmos o natal no mundo dos brinquedos, anda cá se queres, mando-nos beber uns cocktails evaporados para o mundo do faz-de-conta. Eu diria que prefiro o mundo das histórias. Das histórias verdadeiras onde as sopinhas de letras formam páginas de tablóides trapezistas num circo à moda antiga. Para a minha ceia convidei figuras fantásticas daquelas que dão arrepios na pele, mas nada de evocações a Marco Paulo num mexe e remexe de duplas criaturinhas amorosas, loiras e morenas. Diria que me fazem rir e para si vou dar-lhe os seus rocambolescos contos acompanhados da fava do bolo-rei. À entrada do cabaz de natal, espadachim tal e qual o Zorro do Banderas, vem o Gato que quer sempre lambidas as botas. Na ponta da espada as pessoas como simples recursos empresariais de colarinhos apertados e uma imperial de fornecedores de inteligência que a Cinderela embala no sapatinho de cristal. Bem, sempre tem que haver aqueles, os das ideias, mas sempre à sombra dos seus líderes que se dizem senhores da lâmpada de Aladino e dos tapetes mágicos das promessas. E assim se vão mantendo. Era suposto o direccionamento de metas, Sr. Administrador, porque quem ganha a corrida é a tartaruga que levou o tempo a fazer o trabalho que a lebre não organizou. Mas é sempre a lebre que brilha e ainda traz a cigarra a tiracolo e que levou o Verão inteiro a cantar. A Bela Adormecida há 100 anos que dorme mas é esbelta e bonita. Às vezes dou comigo a pensar na triste Inês de Castro que foi coroada já estava mais que morta...Somos Polegarezinhos diria, mal calçados e sem extravagâncias que às sete da manha já estão a adiantar trabalho e às nove da noite ainda estão a terminar a jornada de cinco ou seis calões que levam o dia à espera que o telefone toque com pozinhos da fada madrinha. O carro fica lá fora pois estacionamento é para aqueles que chegam ao meio dia com uma mão cheia de chávenas de café no bucho e os sonos muito, mas mesmo muito, em dia. E a responsabilidade de linha e a função de staff? E a cultura participativa? Na tropa os novatos também têm que ler e dar a volta à imprensa e depois ir resumi-la aos queridos veteranos, mal agradecidos, que os acordam, numa noite sem sono, com berros da bruxa má. E nós a mastigar a desmotivação e ranger entre dentes "já agora cabra cabrês, salta-me em cima e faz-me em três" e assim ainda sou mais produtivo. E lá nos esquecemos da individualidade e da realização pessoal, Sr. Administrador. Eu não posso ter uma planta à janela mas aquela que grita dias inteiros “espelho, espelho meu existe alguém com um jardim de antipatias e frustrações maiores que o meu” tem quase que colado ao vidro os papéis da Inquisição. E os pintas que vão ao estrangeiro ver a inovação no programa de facturação, programa que nunca lhe vão tocar. Pianos sem teclas, Sr. Administrador. Onde fica a formação de quem efectivamente tem as teclas mas foi-lhes tirado o resto. Uma vez ouvi falar em enriquecimento do capital humano, o Pinóquio também vem no cabaz e fala muito disso. E a Carochinha e o João Ratão que em prémios comerciais encheram o caldeirão. Igualdade acima de tudo, Sr. Administrador. Há que preparar o futuro para crescer e desenvolver. Por isso não nos devemos conformar com as conquistas já alcançadas. E buscar sinergias... Viva ao trabalho de equipa e solidário. Ah ah ah, Sr. Administrador, mas a Branca de Neve tem sete braços direitos de contratos mensais e uma cesta de maçãs de ignorância. E já agora parabéns, Sr. Administrador, excelente ideia a de criar uma empresa de trabalho temporário para dar emprego a estes e a milhões de anões, afinal são todos uns bons rapazes. Tão conveniente...E com isto tudo, porque se faz tarde, e ainda tenho que comer as filhós que o Lobo Mau deixou na cestinha do Capuchinho, vou dizer-lhe que já criei o meu próprio emprego. Vou ser cobrador... O cobrador de natais, Sr. Administrador, porque este ano, graças a si, a muitos gémeos e aos vossos encruzilhados mandamentos de gestão de pessoas, o coelhinho NÃO VAI com o pai natal e o palhaço no comboio ao circo...




BAR

Hoje sirvo Barbie Doll
Ingredientes:
- 30 ml de Malibu
- 30 ml de Groselha
- 30 ml de Sumo de Ananás
- 30 ml de Sprite

Preparação:
Num copo de Cocktail, juntar tudo sobre gelo.


E para recordar: Christmas (Baby Please Come Home) - U2

domingo, dezembro 17, 2006

Grandeza



Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar
Friedrich Nietzsche

sábado, dezembro 09, 2006

Ex Malo Bonum

Climatecrisis
























www.climatecrisis.net



Nada é bom ou mau se não for por comparação
Thomas Fuller


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Gustave Doré - Paradiso 34

Será que do mal se pode retirar o bem ?

O mal existe, mas nunca sem o bem, tal como a sombra existe, mas jamais sem luz.
Alfred de Musset


Pensem e escrevam. Tenham como suspiro e bebida as duas imagens. É um desafio...



  • Sinopse em Português An Inconvenient Truth
  • sábado, novembro 25, 2006

    Carrinhos de linhas, manias e utopias.

    Photobucket - Video and Image HostingExiste uma certa grandeza em repetir todos os dias a mesma coisa. O homem só vive de detalhes e as manias têm uma força enorme: são elas que nos sustentam.

    Raúl Brandão



    O subconsciente traz-te os slogans errados, ene coisas que o teu pai te implantou e as bibliotecas impregnadas de esoterismo da tua mãe. É claro que nada foi impedimento e passei a enrolar um carrinho de linha, com estradas de outros carrinhos que existem perdidos em todas as mansões e mansardas dos nossos diagnósticos lunares. Das noites no telhado e do cinema Pax Julia mesmo ali à porta, estão transplantados muitos dos teus sonhos levados por cápsulas e comprimidos hipocondríacos. E depois um Sítio do Pica-Pau Amarelo com muitas personagens, clínicas e depressões avulsas. Tu eras um Pedrinho, eu uma Narizinho, o teu pai uma Cuca versão masculina, a tua mãe, por algum tempo, a D. Benta, o teu irmão um Visconde que parecia derramar inteligência e ainda uma Emília louca que nasceu dentro de ti e que te transformou num profeta, a tua doença. Os pombos correio traziam-te postais do inferno que disfarçavas mandando-os de volta em efemérides para as meias horas que o Diabo te dedicava. Talvez sentisses que estava perto a mania que te havia de transformar no meu herói da Marvel dos livros de estimação do Visconde. Mania que te leva à alucinação sem ser necessário qualquer narcótico. Ao trapézio sem rede. As tuas mágoas eram lavadas no bar dos afogados, o meu colo que sente as tuas energias. Sei lá, acho que este colo foi feito para ti e para o desenho do porquinho cor-de-rosa do Visconde pequenino que despoletou uma grande tareia da Cuca, porque no Alentejo só existiam porcos pretos. Que ousadia foi uma criança sarapintar um bicharoco daqueles com a cor dos lacinhos e dos espartilhos das meninas. Que audaz foi teres nascido bipolar e de só eu te saber camuflar a controversa personalidade que te leva ao palco de Deus e a quereres ser a estrela da alva. Lembro-me de acordares brilhante e sem rumo no meio das cidades que construo de papéis e tudo o que guardo com a sensação que vou precisar mais tarde. Tralha e tralha mas nunca igual à que a Cuca arrumava com cuidado na tua pura mesinha de cabeceira psicológica. Eras o meu livro preferido sempre presente. De todos os meus livros, e mania de coleccionar livrarias, eras aquele que a D. Benta me deu e autorizou a ler. Há tantos que ainda não li mas carrego-os comigo para todo o lado como carrego a tua fotografia até para a praia (que excentricidade) com a esperança de voltar a olhar preocupada para a maré alta e ver-te desaparecer para fazeres a travessia dos mares num kayak. Eras o meu book da boa arte de negociar, o book que a Cuca se encarregou de desacreditar perante todos. Quando eras o melhor em trading, na empresa. Para mim o melhor nas Alimentárias* de Paris, Colónia e Barcelona, ninguém negociava melhor do que tu. Mas ninguém podia ser melhor que a Cuca. Ninguém podia carregar uma Emília maior que a que a Cuca carrega e que lhe dá poderes quase sobrenaturais e de resistência às horas do dia e a noites soberbas sem dormir. Havia uma diferença fundamental a tua Emília não tinha maldade. Lá está, há mares calmos e amenos e há o mar do norte. Há o Verão e o Inverno. Há os bom amigos e os maus aqueles que se deixam comprar e que a Cuca compra (e escusam de dizer que isto é a minha mania das perseguições), tenho a certeza e mais não posso falar. Todos se esqueceram deste meu conhecimento de cada letra do teu livro. Todos se habituaram a ver-te caminhar sem muletas familiares e a não ter o hospital dos malucos como pano de fundo. Passaram 12 anos, muitos hectares de amor. Partiste deixando-me no cabeleireiro, também tenho este desejo imoderado do cabelo sempre penteadinho, para voltares umas míseras páginas depois e me pedir para ser a tua biblioteca de novo. Partiste porque a Cuca assim mandou. Mas a Emília voltou... O meu carrinho de linha caiu, acho que já não o consigo desenlear, no fundo tenho medo de partir a linha. Ou não tenho coragem de a partir? Hoje tenho o Sítio e família à minha espera, até a Cuca imaginem! Afinal és filho e o dinheiro não compra saúde e amor verdadeiro, tá visto. Esperam por mim à porta do Júlio de Matos. Já lá entrei e vim muito feliz... Encontrei-te, já não és Jesus Cristo... Estás a regredir na hierarquia, estás melhor. Hoje olhei para ti e disseste-me: Estás a ver as minhas sobrancelhas? Não te lembra ninguém? Hummm... Eu sou o Profeta Daniel...




    *Feira Internacional de Alimentação
    (Negociação de todos os produtos alimentares)


    NOTAS
    Após esta reflexão, e não fugindo de forma alguma ao tema principal que me traz aqui hoje, respondo ao desafio que o Alexandre do Fundamentalidades me dirigiu (aqui) . Ao longo do post encontram-se as minhas 5 manias.



    LINKS

  • Psicose Maníaco-Depressiva


  • Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares


  • Depression and Bipolar Support Aliance


  • Sítio do Pica-Pau Amarelo



  • Um dos filmes da minha vida e que retrata a doença que neste post chamei de Emília:
  • Mr. Jones

  • Mr. Jones


    BAR

    Hoje sirvo um long drink Angel Face
    Ingredientes:
    3cl de Vermuth Tinto
    3cl de Campari Bitter

    Preparação:
    Agitar tudo no mesmo copo. O copo deverá ser do tipo long-drink.
    Acabar de encher com água gaseificada.
    Para decorar:1/2 rodela de laranja e 1 casca de limão.

    quarta-feira, novembro 22, 2006

    Terminal

    Passeando pelas minhas reflexões, leituras e a relembrar Confúcio-Quem não sabe o que é a vida, como poderá saber o que é a morte?-, deixo-vos a sugestão de leitura do post de Tearatai em Asas da borboleta (aqui).

    E este é, sem dúvida, o mais doloroso paradoxo da nossa época: fazendo de conta que a morte não existe, tornámo-nos pessoas tristes e deprimidas que passam pela vida como se já estivessem mortas. Caramba!

    Tearatai (http://asasdaborboleta.blogspot.com)

    sábado, novembro 11, 2006

    Diário de Bordo

    Adivinhem do que falou hoje Adelino Gomes do Público numa das suas "Fugas" a Nova Iorque a convite da Fundação Serralves ?
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    Do Diário de Bordo da minha irmã Maria viajante também e passageira do Airbus A330 da TAP que rumou a Nova Iorque neste tour cultural.
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    No Diário um dos desenhos da Maria na página à direita.
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    Talvez porque, e como disse André Suarés, o viajante ainda é aquele que mais importa numa viagem :
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    NÃO HÁ HOMEM COMPLETO QUE NÃO TENHA VIAJADO MUITO, QUE NÃO TENHA MUDADO VINTE VEZES DE VIDA E DE MANEIRA DE PENSAR (Alphonse de Lamartine)

    terça-feira, outubro 31, 2006

    Noite das Bruxas

    Cada vez que piso a estrada, o retrovisor seduz-me, faz-me amar e desejar quilómetros de asfalto. A Gata Borralheira, ou será a Cinderela, despoja-se do seu sapato de cristal no DVD esquecido. Os rails, o desapego do silvestre campo e do teu olhar atropelam-me a 90 e complicam o diário escrito com histórias do Charlie Brown e do seu cão atmosférico. Na rádio a Prova Oral da Antena 3, os desafios certeiros do Alvim e os apetecíveis convidados que falam connosco no caminho. Temos companhia mesmo que no pendura não se identifiquem anjos ou fantasmas. Talvez o stop seja só para mim, para que eu deixe o sapatinho de cristal à beira do retrocesso. No tejadilho a alma, as toneladas do primeiro acidente da manhã que é sempre com um pesado. Vem a preocupação, o saber, o querer ver se rolas ainda em pneu energy de baixo atrito e resistente a longas viagens. Resistente aos almoços no chão em frente à lareira e ao meu sonho concretizado de dormir com lenha a chorar e percorrendo a reboque os desejos de cartoons e do Shreck animado. Não sei porque te deu para apareceres ao pé de mim e me perguntares: “E se de repente lhe oferecerem...” e eu à espera das flores num Impulse multicolor à Floribella e aos beijinhos diários e rotineiros. Nada de espectros senhora, nada de pensamentos românticos e toques subtis de cabelo. “E se de repente lhe oferecerem uma viagem de longo curso?” Descarada e espontânea a pergunta como a tua entrada na Livraria Bulhosa aquando do lançamento do Kiss Me onde seduziste a Marilyn Monroe por míseros cêntimos. Depois o livro das casas de madeira em fotos tipo National Geographic e os barquinhos do Campo Grande onde navegaste com a cabeça debaixo da minha saia para me envergonhares. Acho que os patos ainda se riem da minha cara de escândalo pueril de doutora apanhada ao desprevenido pelas regras da pressão baixa e do aumento da resistência, o consumo devastador. Algo que se entranhou num esforço de física e tatuagem. Tu estás em mim assim e como sempre de colher a bater nos dentes depois duma mousse brasileira no Charlot dos Olivais. É ali num canto que sentes a pressão do meu coração a frio como manda o figurino. O coração que perscruta cada manchinha de óleo das tuas mãos de dragão e de dor atenuada pela ausência dum coração teu. No teu peito bate a ferramenta a 340 cavalos dum Scania de cor igual aquela que eu desejava num berço. Depois a espera, a madame apetecia-lhe tomar algo, e tu a dizeres que deixarás a Frize, e de morango, a refrescar no Mar do Norte, um mar a cheirar a nacional, às vezes a internacional. Breakfast in América para variar num subúrbio onde se vê o que nos escondem desde meninos, onde a butterfly dança no bolso a código de rua e de quem é dos nossos. É assim num longo curso que já não sinto, que aumenta a carga, matéria perigosa, com certeza, com losango sinal laranja e preto a condizer. Paro numa área de serviço as batatas fritas deixo a meu lado à espera que as venhas comer numa linha motriz adequada às necessidades. Ou será uns costelinhos no Porto ou a prometida francesinha. Os pauzinhos de batata ficam sempre lá, naquele cartuxo cilíndrico e calórico à espera que Charles Perrault ponha ali uma fada madrinha que dos ditos pauzinhos te faça um coração, um filho, uma casa e o carro mais lindo da freguesia. Tudo sem feitiços de abóboras às badaladas da meia-noite. Tudo por um dia isento de economia operacional e valor residual. Tudo num tractor chamado desejo com honras de cais de Lisboa e bolo alentejano derramado às gaivotas e o maroto chichi rio fora para vincar a rebeldia. Fica-me o barco afundado tal como me encontraste enterrada num jornal de fim-de-semana, ficam-me os aviões da residencial ao lado do aeroporto, fica a moto quatro nas dunas da costa norte, as altas horas da madrugada e a madame Bimbô da Tv. Só queria ter a certeza que a tua mãe tem: que voltas quando te dá na real gana, nem que para isso faças um intercontinental. Já não me importo que não vejas o vestido turquesa que comprei para te encantar. Já não me importo que a Sophia Mello Breyner tenho arrancado a fada madrinha, as irmãs e o príncipe à história da Gata Borralheira. Que Robert Walser lhe tenha acrescentado um rei sandeu, um bobo senhor de espírito e um príncipe que não sabe o que está ali a fazer. Afinal a nossa história é a história da Princesa e do Dragão como tu bem vincaste. Da Princesa que se apaixonou pelo Dragão mas que também perdeu um sapatinho qual Cinderela em busca de um coche, ou será dum camião grande do alcatrão e das horas laboriosas. Há dois anos. Quando dei por isso já era noite das bruxas. Pelo sapatinho passaste à pouco, já passaste tantas vezes. O Snoopy é o seu cão de guarda, surripiei-o ao Charlie Brown das nossas manhãs de domingo. O raio do cão não sorri quando tu passas. Sabes uma coisa? Acho que dentro do sapato já cresceram ervinhas...



    Hoje sirvo um long drink Butterfly
    Ingredientes :
    3 cl de vodka
    1 cl de mandarine
    1 cl de xarope de morango
    1 cl de natas

    Preparação:
    Meter tudo no shaker, servir num copo longo e preencher o copo com limonada.


    E já agora...

    sexta-feira, outubro 27, 2006

    Eu hoje gostava que o mundo pensasse assim

    Sem Anjos da Guarda





    Prof. Muhammad Yunus fundador do Grameen Bank
    - Prémio Nobel da Paz 2006










    E eis que chegou um Anjo


    A Grameen family

    Uma família de Grameen numa casa nova financiada pelo programa do empréstimo Grameen Bank.


    With Grameen borrowers preparing yarn for weaving


    Apoiadas Grameen preparam o fio para tecer.




    a Grameen 'telephone lady'




    Agora já se pode telefonar para o céu e devolver o seu Anjo para que ele acorde num "bis" qualquer...










    A Muhammad Yunus


    Aqueles que repudiaram o seu demónio importunam-nos com os seus anjos
    (Infelizmente e para muita gente no mundo lembrei-me de algo dito por Henri Michaux)




    Mais informações: Site Banking for the Poor ; Microcrédito para 100 milhões de famílias em 2005

    domingo, outubro 15, 2006

    Ena pá, este é o meu mundo grátis, c’um catano


    Nem todos os caminhos são para todos os caminhantes

    Johann Wolfgang von Goethe


    Acho que chegou o tempo em que os deuses se vão esconder porque decidiram amar-se. E o velho cientista Fausto, pela primeira vez, ignorará o Diabo pois Prometeu vem resgatar o fogo que o deixou anos a fio de fígado pendurado às mãos duma águia gigante num solstício eterno.
    Longo vai o avatar da Declaração do Milénio quase que um sonho de cigarra com a viola às costas. A cada matrioska uma matrioska nova e sempre igual, só com uma pequena diferença, passo a passo vai sendo mais pequenina. Quando decidi colocar a fotografia do post anterior (Pedra sobre Pedra) foi para contradizer esta tão feroz realidade que é fazer-se uma grande campanha, assinar-se politicamente falando contratos bonitos e grandiosos e depois se fazerem omeletas como apoios a Jonas Savimbi que demonstrou uma violência latente, o assassínio de Patrice Lumumba para se colocar no seu lugar a tirania de Mobutu e ajudas ao regime de Apartheid. E tantas e tantas mistelas mais. Como é que uma pequena criança em busca de esmolas alheias nos pode lançar um sorriso de tanta esperança sem gorgulho apoteótico? Agora, que a nossa preocupação anda nas avenidas da chique vacina da gripe. E em que eu me apetece editar umas novas Anitas, dessa boneca de papel vestida de recortes de milésimas histórias. Anita Reduz para Metade a Pobreza e a Fome. Mas com certeza que não é mandando a avó buscar comida para si a instituições sociais e religiosas, para assim poder angariar uns dinheiritos e viajar para o Brasil. Isto passa-se na minha terra. Parece-me que dantes era o Capuchinho Vermelho que ia levar a comidinha à avózinha. E o mais que podia viajar era directamente para a boca do Lobo Mau. Anita Alcança o Ensino Primário Universal. Mas não é pondo as crianças a correr eufóricas à porta de livrarias para comprar o exemplar seguinte do Harry Potter que as ensina aquilo que a Inquisição pensou matar no fogo. E pensar que Prometeu roubou as chamas a Zeus para dar conhecimento ao Homem. E pensar que, afinal, muitos daqueles que buscavam o conhecimento foram eles queimados para sempre...Anita Promove a Igualdade entre os Géneros. Mas não é dando o mau exemplo de continuar a ser a empregada de serviço enquanto o marido lê o Record ou A Bola que não o vai enriquecer em sabedoria alguma e com certeza que não lhe vai ensinar que dois terços dos analfabetos são mulheres e 80% dos refugiados são mulheres e crianças há mercê de modernos Lobos Maus. Tem que se começar por aqui. Com certeza que estes senhores não quereriam ver a sua filha Mulher com a palavra “iletrada” na testa. Claro que podem ler mas primeiro ajudem as esposas. Anita Reduz em 2/3 a Mortalidade de Crianças. Mas não é com a instituição religiosa que lhe dá comida sabendo que ela não a necessita para sobreviver. Porque é que no nosso país assistimos a cada dia que passa a banquetes de arroz, massa e iguarias dados a pessoas que têm tectos para dormir enquanto ainda se morre em barracas ou em nada como as 6,3 milhões de crianças em cada ano que se derruba? Com certeza que a Anita não vai morrer de diarreia pois se bem nos lembramos a menina vive em sítio feliz onde não há secas, isenção de estradas e veículos a motor. E agora a Anita até tem noites grátis de chamadas telefónicas, c’um catano. Anita Reduz em 3/4 a Taxa de Mortalidade Materna. É verdade e nos países em desenvolvimento. Eu sei que quando a Anita for médica e eu entrar num hospital público a contorcer-me com dores lancinantes de morte à espera não me vai perguntar o que é que eu estou ali a fazer, como uma senhora doutora me questionou um dia quando eu só assobiava sofrimento. E ainda me disse “Andam a comer feijoadas e eu é que as tenho que aturar”. A médica também se preocupará com a anemia provocada pela malária, o carregamento de pesos como madeira e água para cozinhar (mas aqui não é feijoadas) e a falta de Maternidades que vem provocar a mortalidade materna? Que é isso do desafio da nossa geração? Deixa-me é ir fazer uma chamadinha grátis e pedir uma feijoada para o jantar, já que tenho a fama deixa-me comer o proveito. Anita Combate o VIH/SIDA, a Malária e outras Doenças. Sim e com acesso da população à informação, aos meios de prevenção, aos meios de tratamento precoce, melhorando-se as condições básicas de higiene e de saneamento básico. E já agora onde está os subsídios para isto, existem mas... Vejam lá: as vacas europeias recebem em média um subsídio de €1,60 por dia, enquanto metade da população mundial sobrevive com menos de €0,90 por dia... Anita Garante a Sustentabilidade Ambiental. Com a educação para a protecção dos recursos naturais o desenvolvimento de hortas familiares, de culturas tradicionais e de apicultura. Mas a Anita um dia vai-me explicar porque nos Estados Unidos 5% dos agricultores abastados recebem mais de 50% dos subsídios e na UE 75% dos pagamentos da PAC centralizam-se nas carteiras de 10% de maiores beneficiários. Anita Cria uma Parceria Mundial para o Desenvolvimento. E fiquem-se com esta, pois acho que agora é o Diabo que nos quer vender a sua alma e vai ele lampeiro descansar para as noites grátis da PT, c’um catano. E vão vê-lo aos berros: Conta-me, conta-me tudo outra vez como se eu fosse muito burro.
    Mas o menino da foto sei que continuará a sorrir e com muita esperança para todo o sempre pois se bem me lembro Pandora violou a caixa donde saíram mentiras, invejas, doenças, velhice, guerra e morte mas fechou-a antes que saísse o mal que acaba com a esperança.



    Hoje com a leitura Declaração do Milénio sirvo Batido de Café
    Ingredientes :
    1/2 chávena de cachaça
    1 chávena de café
    1/2 chávena de natas
    4 colheres de sopa de açucar

    Preparação
    Coloque todos os ingredientes num jarro. Junte gelo, mexa bem e sirva em copo para batido.

    Pedra sobre Pedra

    Como há fotos e comentários que não me passam indiferentes pelo rigor da sua arte, mesmo que às vezes dolorosa a olho nú, aqui fica do blog Pedra sobre Pedra assinado por Teresa:

    Foto: Teresa 04.2006 India

    Como é possivel receber tanto de quem se pensa que nada tem para dar? Estas crianças deram-me mais que muita gente com quem eu cruzei na minha vida.
    Ficarão para sempre em mim!

    sábado, setembro 30, 2006

    (Não) temos livros

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    Sempre me encantei a ver aquelas bolinhas, tão bem alinhadas e inimigas dos alunos das baldas que as tinham que decorar. A ousadia de Copérnico, o bater pé de Galileu espelharam-se nos movimentos circulares que Aristóteles deu no túmulo. Uns dizem uma coisa, outros dizem outra mas ambos têm que admitir que caem à mesma velocidade. A lei dos corpos é excêntrica, quase que nos dava na gana de jogar as ditas bolinhas torre de pisa abaixo para que elas caíssem certinhas, ao mesmo tempo num livro escolar que todas as crianças pudessem ver. A eito da luneta astronómica do mestre. O telescópio, que os meninos olham e imaginam que bolas de sabão podem nascer de uma simples espreitadela. Os planetas.
    Mercúrio é o que parecia girar mais rápido que qualquer outro planeta. O Paulinho também é o número um em atletismo, corre mais que todos os outros meninos. Há dias, como um foguete, escoou-se, de noite, nas avenidas à procura de comer nos excedentes lixos dos monstruosos prédios urbanos. Chegou cansado e sem livros à escola, mas ele é um campeão, o veloz, ninguém lhe ganha.
    Vénus, estrela d’alva, de rotação retrógrada, mas o mais brilhante depois do sol e da lua. A Aninha nasceu com uma grave deficiência que não lhe permite andar. Na segunda-feira quis sorrir numa montra de brinquedos num centro comercial de Lisboa e uma escadaria deixou-a a poucos metros de sonhar, afinal ela nem ia comprar nada...Fez marcha atrás e de cadeira de rodas perdeu-se nos jardins do parque onde a avó simulava dar migalhas de pão aos pombos. A Aninha vai à escola, não leva mochila mas é a aluna mais brilhante da turma. “Esta miúda tem uma cabeça!”. Epur si Muove! *
    Terra, essa bela bola e esplendorosa contadora de histórias. Vou ali e já volto...E quando chegar trago outra história triste para contar...
    Marte assemelha-se a uma gota de sangue. Babilónios, gregos e romanos nomearam-no deus da guerra. O Joãozinho lá do bairro também é vermelhinho, já conquistou becos e avenidas, é o dono da rua, um incrível guerreiro. Há uns dias apoderou-se de todos os animais abandonados e coloco-os à porta duma instituição, gerou-se a III Grande Guerra Mundial. “E agora dêem um pontapé nestas bolas de pêlo, vejam lá se são capazes! Mas estas não são da Nike aviso já.” Disse, antes de ir embora com um olhar muito mau, aliás ia furioso. O Joãozinho começou as aulas mas não tem livros escolares.
    Júpiter e Saturno, o grande e o belo, um de núcleo gelado e corpos rochosos e o outro de anéis mas das mesmas matérias, como chá e leite numa mistura à inglesa e ao lanche. O Buchinha e o Estica são inseparáveis, uns diabinhos que cheiram os manjericos das vizinhas, empurram os sapatos da janela do Ti Joaquim Sapateiro, puxam os rabos da gataria, bem já estão a ver que são terríveis e não vivem um sem o outro. Já agora leite e café fazem uma combinação maravilhosa, sente-se. Mas se em vez de lhe pormos açúcar despejarmos umas colheradas de pimenta, morremos com uma careta sobrenatural. Foi o que eles me fizeram. Monstrinhos. Também vão para o ensino, não têm canetas de feltro nem nada. Quando entrarem num estádio de futebol, daqueles que são construídos com milhares de euros, eu sei que vão vandalizar as cadeiras, escrever as letras e fazer os desenhos que não fazem nos cadernos e nas folhas de papel cavalinho...
    Urano foi registado inicialmente como uma estrela. Posição inclinada, quem sabe, resultado duma colisão. Há um Menino que vive perto duma aldeia alentejana, durante o dia esconde-se num buraco, não fala, não ri, não faz nada, sofreu a colisão duma família alcoólica e violenta. Nem que o Pauleta se pusesse lá, feito maluco, aos pontapés a uma bola de queijo ele sorriria. Se um amigo meu vê este inferno, quase todos os dias, e me perguntou como denunciar esta situação? Onde está a Solidariedade Social? Que chatice vamos é falar de Maomé como fez Bento XVI e gerar mais um pouco de caos e buracos mundanos. Crateras. O Menino alentejano é uma estrela cadente e não vai à escola.
    Neptuno é o planeta das tempestades e da bruma, tão longe do sol. Patricinha toma conta de duas irmãs pequeninas, hoje já fez o almoço, lavou a loiça que serviu comer a 8 pessoas, limpou o pó, varreu o chão e levou uma tempestade de estaladas porque partiu um copo (pois lá diz o velho ditado quem menos faz menos erra). Ontem Patricinha entrou na Junta de Freguesia da aldeia e foi perguntar onde estavam os ecopontos pintarolas que os catitas meninos da TV idolatram. Ela já separa o lixo mas vai à escola e não tem livros.
    Plutão recebeu o nome dum deus romano do submundo. E curiosidade, poucos sabem que foi Fernando Pessoa o responsável pela sua introdução nas cartas astrológicas. Plutão é regente de Escorpião o signo do Luís Miguel um rebelde com um pouco de todos os meninos que por aqui passaram, não teve comida, não teve brinquedos, não teve livros, mas teve e tem sonhos, trabalha de dia e de noite. As aulas começaram e há duas semanas realizou um sonho antigo: aos meninos pobres da sua rua ofereceu os livros escolares. E disse-me que foi maravilhoso ver-lhes as caras felizes com as toneladas de enciclopédias às costas. Trocou um punhado bem valente de euros por sorrisos de crianças. Estes meninos já têm livros. Mas esperem! Plutão foi banido do sistema solar !!!!! Mas nos livros ele ainda está presente. E quando já não figurar no sistema solar dos ensinamentos continuará na via láctea onde permanecerá para sempre.



    * ”Reza a lenda que, ao sair do tribunal após sua condenação,[Galileu] disse uma frase célebre: "Epur si Muove!", ou seja, "contudo, ela move-se", referindo-se à Terra.”
    In Wikipédia


    Hoje sirvo Asas de Anjo
    Ingredientes :
    1/2 dose de aniz
    1/2 dose de xarope de morango
    1/2 dose de licor de ginja

    Preparação:
    Ponha os ingredientes num cálice alto de licor, na ordem em que foram enumerados, cuidadosamente, para que não se misturem e sirva.

    domingo, setembro 17, 2006

    Depois de Amanhã

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    À Cleópatra porque para ela não há depois de amanhã


    Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
    E assim será possível; mas hoje não...
    (...)
    Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
    Sim, talvez só depois de amanhã...


    Álvaro de Campos



    Quantas vezes se dirigiu Bosie ao cárcere de Oscar Wilde? Mudos seremos quando quisermos surpreender uma resposta. De Profundis e uma alma serena que por detrás de ferros escrevia ao seu amor do qual esperava uma aparição. Dependência gera desconforto, a fragmentação humana como um puzzle onde faltam peças. Wilde era um dependente de amor, como dependentes são aqueles que num jogo excêntrico onde Quixotes e Panças amortecem as quedas em roletas, deixam à mercê dos glutões do Presto toda a sua vida. Tapava a cabeça e destapava pés, tapava os pés e destapava a cabeça num lençol inútil que não acalentava o corpo. Mas há mais quem cubra o rosto e num trivial retrato também cobre os restantes membros, mas aqui há pano de sobra. A quase um metro do chão amordaçam-se actos sucessivos duma tragédia, com grades e tudo, e um cheirinho verdadeiro a hospital ao pequeno-almoço, ao almoço e ao jantar. Os sentimentos guardam-se em ampolas de desespero, dor e muitas saudades. Escaras de decúbito por ossos rente à carne e pressões obrigatórias. Seriam utopias se todos fossemos humanos. Estado nutricional debilitado, humidade, falta de asseio, excesso de calor ou frio remexem-se em camas de madrugadas sem creme hidratante ou anti-séptico. Como animais abandonados são deixados acamados, idosos e inválidos e a acompanhá-los contactos falsos e suores que os transformam numa metamorfose de Kafka. E ei-los a olhar para os moinhos de vento sem Dulcineia, com apenas Mercúrio que os presenteia com mensagens do nada. O mensageiro dos Deuses também nunca trouxe nenhuma carta de Bosie a Wilde, mas Wilde escreveu-lhe até aos últimos dias da sua vida. Pois o amor não tem tempo e perdoa a ausência. A ruptura com o quotidiano desencadeia um deficit com o globo terrestre, acaba-se a autonomia, desfazem-se as certezas, os seus ecos rodopiam nos leitos ao lado: são estes os retalhos dum acamado. Por detrás da coberta: Tenho sono como o frio de um cão vadio*. Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança. O meu cansaço entra pelo colchão dentro. Doem-me as costas de não estar deitado de lado. Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.** Mas esperem... Há quem os despreze mas há quem os queira embalar... Um dia dirigi-me a uma instituição num portugal de pequeninos e ofereci os meus braços e o meu tempo. Deixei a minha inscrição para voluntariado depois de perder um par de horas a conduzir velhotes pelos corredores com medalhinhas do Doutor Sousa Martins em riste e muitas palavras já com traça nos roupeiros da memória. Absentismo familiar. Básico. Mais tarde voltei a oferecer, a minha alma a outra instituição de renome internacional. Na televisão as estrelas e as tias a dar chá aos doentes, num show cadavérico e esquecido, para algumas, um café depois. Aqui vendem-se almas. E eu aguardo, aguardo, desespero... Mercúrio tem passado e também não me traz respostas das instituições onde depus as minhas asas... Ninguém me chama, acho que já lá vão 43800 horas... Mas um acamado necessita mudar de posição de duas em duas horas... Quem se eu gritasse, entre as legiões de Anjos me ouviria? ***
    Uma pequenina menina, a Cóquinha, não esperou, agarrou no pai, deixou tudo e dedicou-se a ele tendo como pano de fundo uma cama. Papas, hidratantes, almofadas, fraldas que nos fazem rabo de pato, fé, vontade, consciência, humanidade... Um MITO... Houve uma hora em que Yeats disse a Wilde: "Invejo os homens que se tornam um mito ainda em vida". Ao que ele respondeu creio que um homem deve inventar seu próprio mito"... Pois é. Mas, depois de amanhã. Há quem espere pelo depois de amanhã para se inventar... A Cóquinha não esperou...


    Citações
    * Alvaro de Campos in Adiamento
    ** Alvaro de Campos in Insónia
    *** Rainer Maria Rilke in Primeira Elegia


    Hoje sirvo Coktail Beijo de Anjo
    Ingredientes :
    1/2 dose de licor de cacau
    1/2 dose de licor de ameixas
    1/2 dose de aniz
    1/2 dose de creme de leite fresco

    Preparação:
    Ponha os ingredientes num cálice alto, cuidadosamente, para que se não misturem e sirva em seguida.

    sábado, setembro 16, 2006

    Sol

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    Pela minha fanática residência no jornal Expresso durante dois anos e meio, hoje percebo porque acordei e o dia tem um brilho diferente.

    Não digo que vou ter esperança, porque tenho em mim todas as certezas do mundo.

    Parabéns ao semanário SOL e a toda a sua equipa.

    sábado, setembro 02, 2006

    Pão com Dedo

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    Ao Sr. Jorge Saudades com carinho


    É estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio...

    Álvaro de Campos


    Amélie Poulain acostou-se a Montmartre, lugar de cultos ambiciosos e artísticos por onde espreitam gauleses a colina de gesso. Na sua caixinha os sonhos de muita gente, uma guarnição de legionários romanos e a poção do druida Panomarix. Um mix recambolesco à Ponson du Terrail. No bar Degas agitando O Absinto, Cezanne compondo os retalhos do Arlequim, Monet em Estúdio Flutuante, Van Gogh entre Lírios e os Quatro Girassóis, e Renoir de pensamento em La Moulin de la Galette(claro). Na parede em auto-retrato um monte de anjinhos que esconderam as asas e vieram entornar uma Super Bock green. Sem dúvida, deslocaram-se ao sítio certo... Do outro lado da rua a tabacaria, uma pilha de jornais e alguem que conquistou todo o mundo antes de se levantar da cama... e é para lá que Amélie olha, apesar do bar carregado de celebridades. Que importa os célebres se existem pessoas que tem em si todas as histórias com coração, sim coração, porque a maior parte da gente não tem nada ali naquele avenida central do tórax. O jornaleiro saiu da caixinha de Amélie e duma rua de Lisboa, na mão um auto de exame médico, um filho politraumatizado, mais quatro crianças, a esposa e um pacote de Maizena para o jantar. “Aos trinta dias do mês de Agosto de 1993”... “Aos trinta dias do mês de Agosto de 1993”... Uma grua empurrou-lhe o filho e nada se fez... como nada tinha o pão que engolia com dedo para poder carregar as muitas toneladas de prédios alfacinhas. Hoje é jornaleiro mas tem nele muito cimento, ou será, sofrimento? Não. Ele tem é muita tolerância. E dantes não havia isto do trabalho temporário em Portugal, agora é mais sofisticado, faz-se um seguro às pessoas (que boa ideia), até se fazem descontos (excelente) e permanece-se fantasma para sempre à estalada, de contrato a contrato, mês a mês para toda uma promessa. E sabem que mais ? Os donos das empresas de trabalho a tempo definido, por acaso, até são administradores de grandes empresas marteladas neste país à beira mar suplantado e que dão emprego a tanta malta (rendo-me). Ciclo vicioso ou ciclo ambicioso bem dizendo e sofisticando a coisa. Anda t’ai Portugal, Cardoso e Cunha e a falência prometida (“aventura ruinosa” chamou-lhe a Visão esta semana). Um offshore empresarial num shaker de ideias iluminadas. Até contratamos o Professor Pardal e ficamos tão felizes. Temos pena diriam os Morangos com Açucar... Amélie serviu as celebridades e olhou de novo para o jornaleiro... 11 de Dezembro de 2000 e “nos termos do artº 277 do Código de Processo Penal, foi proferido despacho de ARQUIVAMENTO” (em letras grandes, nada de cepticismos). E passaram-se tantos anos parece que todos os dias é o primeiro dia do resto das nossas vidas. Haaaa....... O Sr. Engenheiro caiu do cavalo mas jurou a pés juntos que caiu ai numa obra qualquer, enquanto fiscalizava as toneladas de uma grua (ai seguros para que vos quero). Acidente de trabalho... nada que não se folheie nos arrais deste oceano. Esqueci-me de dizer uma coisa, o filho do jornaleiro também ajudava a pôr a migalha da Maizena em cima da mesa. Do outro lado da rua um sorriso e um agente principal da circulção do sangue (un grand coeur). Amélie retalha a calçada, olha o jornaleiro e estende-lhe uma tosta mista, para dizer a verdade sentiu-se tentada a oferecer-lhe a poção do druida Panomarix mas deixou-a sossegada para dar luta aos legionários romanos (afinal temos que lhes dar um bocadinho de controvérsia ). Acabou-se o pão com dedo e o comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!* Volta em direcção ao bar mas de repente olha para trás e grita: "Haaa, Sr. Jorge, já me esquecia! Essa tosta foi o seu filho que pagou..." E piscou-lhe o coração...


    *Citação de *Álvaro de Campos in Aniversário


  • Para inglês ver... Acidentes de Trabalho pela Inspecção-Geral do Trabalho

  • Sinopse do filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain


  • Hoje sirvo um Batido de Frutas
    Ingredientes:
    1 chávena de leite de soja
    1 colher de chá de extracto de baunilha
    2 laranjas grandes descascadas e descaroçadas
    1 banana grande descascada
    5 cubos de gelo

    Preparação:
    Colocar tudo dentro do copo de batidos e bater até ficar homogéneo. Serve-se de imediato.

    segunda-feira, agosto 21, 2006

    City Lights. Há Fogo na Praça da República !

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    Anjos ou deuses, sempre nós tivemos,
    A visão perturbada de que acima
    De nós e compelindo-nos
    Agem outras presenças.
    (...)
    Nossa vontade e o nosso pensamento
    São as mãos pelas quais outros nos guiam
    Para onde eles querem
    E nós não desejamos.


    Ricardo Reis


    Angel Chaplin, senhor de muita presença humor e sensibilidade acercou-se da Rua dos Infantes e num suspiro mudo e criativo escorregou em City Lights. Assustou-o a luz e lembrou-se do amor e do anjo cego que vendia flores nas hierarquias da plebe. E andarilho gritou: “Há fogo na Praça da República !” Aliás, o país está a arder. Consomem-se cigarrilhas de seiva e clorofila num universo 820 labaredas semanais com asas tamanho de Adamastores escondidos no cabo das chamas. A sangue frio diga-se e alarmam-se as estatísticas da protecção civil. Chegámos à lista negra, senhores, fumam-se histórias da nossa infância, lugares sagrados e de trabalho. Uma fotobiografia planetária chega por satélite a qualquer momento e, aos farrapos, o vestido desta vez é mesmo ás bolinhas amarelas... Alinharam-se oito meses do ano e já 694 inquéritos nos acordes da PJ por suspeita de fogo acrescentado ao mapa. É sazonal , mas nesta altura há quem arranje um trabalhito a acender uns fósforos: há bués de tempo que a malta está desempregada e isto de acender lumes para os santos populares já lá vai.
    Pois quem se lembra do filme de Chaplin recorda-se do seu cárcere e da sua ânsia por dinheiro para pôr fogo nos olhos do anjo cego que vendia flores na rua. O vagabundo até ousou lutar boxe. Acredito que hoje faria luta livre (é mais empolgante e bem encenado) e depois sentaria-se no bar a beber um Red Bull, porque “Red Bull Dá-te asas...” E quando as autoridades aparecerem asas para que te quero, afinal sou um anjo ! O errante foi preso (naquele tempo ainda não havia a milagrosa bebida do bovino vermelho). Os verdadeiros incendiários e autores morais não são!? E eu que não queria cair naquele conformismo social e bárbaro que às vezes anda no ar e contagia-se. Está mal mas vê-se logo, aprisiona-se os Irmãos Metralha e ficamos mais descansados...
    Bem, acho que vou ver o Poseidon. No meio da dor um pouco de água e alguns sobreviventes porque alguém tem que sobreviver para contar a história. Quanto a Angel Chaplin caminha em recta para a praça. Lá, de labaredas nas órbitas, está a menina que vendia flores, recuperou a visão e só o reconhece tocando-o, afinal nunca o tinha visto. O FOGO cega-o a ele, mas quanto a isso não há nada a fazer. Até porque não é necessário tocar-lhe nem vê-lo para saber que ele está lá...

  • Sinopse do filme City Lights



  • Hoje sirvo um Shot Anjos e Demónios
    Ingredientes :
    Blue Coração, Vodka, Groselha, Absinto

    Preparação:
    colocar as bebidas pela ordem indicada, e arder, beber com palhinha

    domingo, agosto 20, 2006

    No bar em guerra e nua sentada a beber um Coktail Asas Brancas


    Que o anjo de si é ávido
    De transe e rapidez,
    E é ele que chora
    Nosso chumbo hora a hora
    É ele que não entende
    A nossa estupidez.


    Vitorino Nemésio


    Fernando Pessoa já bebe, sentado na fotogénica calçada, admirando a surprise do ovinho kinder e deitando os búzios no “espelho meu” : Quem foi que ganhou a guerra, Israel, Hezbollah, ou Eu ? É por causa destas coisas sérias que não podemos beber um scocth descansados. Apetece-nos ver o Show dos Marretas e pôr o Coelhinho da Páscoa a pulos desenfreados mas tudo já teve o seu século. Para pelejas há sempre tempo, vou ali e já venho, e quando chego ligo para o 112 internacional porque vejo, em estado atmosférico e de imprensa, um chorrilho de seres com asas a chorar. Sim também palreio com os anjos e por isso esta minha afinidade com o celeste e a inauguração do Angel Bar. Ás vezes, cozinho omeletes sem ovos e distraio-me com os anjos que “são rijos como as pedras” já dizia o Nemésio, mas quando chega a hora ai que é vê-los a derramar ... É por isso, ao sentar-me e plagiar em actos o Pessoa, sou mais fina, e peço um coktail de lágrimas de entes puros e espirituais. Mas diet por causa das moscas. Infelizmente nas guerrilhas, à beira bar sentadas, é importante um copo de cerveja rascunhado de terrorismo particular (tem muitas vitaminas), um copo de whiskie letrado de milícias (próprio para o figado), um copo "on the rocks" de ideologias estranhas (as ideias têm que ser frescas tá claro, faz bem ao corpo) um monstrengo de copo de armaduras lanças e espadas (faz bem à coluna) e muitas coisas bem bonitas para fazer inveja ao bélico, dar umas coceguinhas nos bichos carpinteiros e corda aos sapatos que se faz tarde. Até o Fernando Pessoa poema centros de comando, aponta a infra-estrutura militar e fecha a porta do bunker pois “Senhor, falta cumprir-se Portugal !” Mais tarde dá ordens aos “gigantes da terra [que] suspendem de repente o ódio da sua guerra e pasmam.” Pasmou-se um pedaço de Oriente, mas até quando ?
    Eu pasmada fico-me pelo cálice em formato de balão que é próprio para licor, porto, xerez e coquetéis variados. Não esquecer: todos os copos com uma pequena base que os torna bem leves como os anjos , “leves como as plumas” (esta é do Nemésio). E dispamo-nos de preconceitos porque os reis vão nus e sem donaire. O Fernando já convidado deixa a calçada e vem. Senta-se no balcão e “não dorme (...) pois não há sono no mundo.” E escrevinha num lance de vodka “mas na Estalagem do Assombro, tiram-te os Anjos a capa: segues sem capa no ombro (...)Tens só teu corpo, que és tu (...)Então Arcanjos da Estrada despem-te e deixam-te nu.” Pois é Fernando as guerras deixam-nos sem ornatos e despidos ansiamos um cessar fogo destemido. Por agora foi-nos concedido o desejo, foi a surpresa do ovinho kinder...


    Hoje sirvo Coktail Asas Brancas
    2 doses de gim
    1 dose de licor de menta
    gelo picado

    Preparação:
    Ponha os ingredientes no shaker, com o gelo picado, agite bem e sirva em seguida.

    sábado, agosto 12, 2006


    As ondas são anjos que dormem no mar,
    Que tremem, palpitam, banhados de luz...
    São anjos que dormem, a rir e sonhar
    E em leito d'escuma revolvem-se nus!
    E quando de noite vem pálida a luaSeus raios incertos tremer, pratear,(...)
    E quando nas águas os ventos suspiram,
    São puros fervores de ventos e mar:
    São beijos que queimam... e as noites deliram,(...)
    Ai! quando tu sentes dos mares na flor
    Os ventos e vagas gemer, palpitar,
    Por que não consentes, num beijo de amor
    Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar?

    Álvares de Azevedo